The tradition & historical record
6 min read · 2 sourcesToré é uma religião ameríndia, na qual as pessoas buscam remédios para as suas doenças, procuram conselhos com os caboclos que baixam. Já o mestre defuma, receita e aconselha. Certamente é o mesmo Catimbó dos arredores das capitais e grandes cidades nordestinas, onde os destituídos da fortuna procuram como oráculo para minorar os penares e desditas. 1
História
De acordo com Alceu Maynard Araújo, em O Folclore Nacional, volume III, Toré seria o mesmo que Catimbó, Pajelança, Babaçuê ou a Encantaria do Piauí. No vasto Brasil as denominações de uma dança, de uma cerimônia variam de região para região. Em Alagoas, na foz do Rio São Francisco, em Piaçabuçu, Toré é o mesmo Catimbó onde além das funções medicinais fitoterapêuticas são encontrados os elementos fundamentais deste, herdadas do índio: a jurema e a defumação curativa. No Toré, faz-se a procura do nome da moléstia e adivinhação mágica. Além da defumação usam ervas e dentre elas se destaca a jurema em cujos poderes mágicos os sertanejos acreditam piamente. É, portanto, medicina mágica cujo oficial e executor é o presidente do Toré, também chamado "mestre". No Toré de Piaçabuçu, os "caboclos" para "baixarem na terrêra", precisam ser chamados na "piana" por meio de um canto, "linho" ou linha e batidas do maracá. O mestre, dirigente do Toré, não usa indumentária especial a não ser um cocá de penas, chamado por ele de "capacete de índio". Os membros do Toré se reúnem às quartas-feiras e sábados, logo após o sol se pôr. É a reunião, a "chamada". Após a reunião em que várias pessoas tomam parte, há uma outra, que é o "trabalho da ciência", assistido por cinco ou seis membros mais importantes, ou melhor, mais adiantados no "trabalho". A este "serviço de mesa" aos não iniciados não é permitido participar, a não ser o que "tem sangue de índio, sangue reá". Há uma outra reunião, às vezes anual, que é a do "banquete dos maracá", "onde só os antigo pode cumê", reservada exclusivamente para os provados frequentadores "filho dos filhos de aldeias". 1
O trabalho
Para ter início o "trabalho", nome que dão à reunião, o presidente aproxima-se da mesa, sobre a vitrina (copo d'água) coloca sete pingos de vela "que é o traço que representa a cruz do Cristo. Outra vezes, coloca coloca pingos na vitrina para formar a coroa de São Jorge. No Toré há o pedido do auxílio de Jesus e dos Santos, ao passo que no Candomblé não. No Toré, ouvem-se muitas frases correntias no culto católico romano, no Candomblé não. O presidente observa na vela que é para o Ogum de Ronda, e o semblante da vela é que dá o sinal do que vem para enramar se é contra ou a favor. Isto é preciso porque de vez em quando aparece um espírito branco, com o qual precisam ter cuidado. Atira um pouco d'água de uma quartinha sobre a piana, reza um Padre-Nosso, uma Ave-Maria, uma Salve Rainha em intenção dos bons trabalhos, persigna-se e começa a cantar: 1
"Em campos verdes (bis) ó meu Jesus (bis) Em campos verdes (bis) ó meu Jesus (bis) Madalena baixada aos pé da cruz, rezando este bendito implora a Jesus." Enquanto cantam, dançam com o corpo curvado, ficando o tronco quase horizontal ao solo. Cantando fazem o sinal-da-cruz, benzendo-se: 1
"Abre-te mesa, em campos verde, Cruzêro, cruzêro divino, Com as forças de Santa Barba e os de sino meu pai Sinhô, Jesuis Sinhô, Pai Criadô em tronco de Jurema sinhores mestre confessô abrindo os tronco da Jurema". Balançam os maracás na altura da cabeça. No Toré não há a presença de membranofônios como acontece no Candomblé. Ali está presente o indiofônio herdado dos índios, maracá (mbaracá dos guaranis) que acompanha alguns dos cantos. Quando algum caboclo está relutando em baixar, o maracá é tocado com mais intensidade e mais próximo do ouvido da pessoa que irá receber o "encantado". Ele mesmo balança o maracá, tirando som e dando ritmo. 1
A defumação medicinal
No fornilho do cachimbo são colocados pedaços de folha de jurema, tabaco, alecrim, incenso. Aceso o cachimbo, é colocado ao contrário na boca do contramestre. Na boca coloca o fornilho, assopra, fazendo a fumaça sair pelo canudo (cânula) do "gaita". A defumação é feita primeiramente da cabeça, desta para os pés, depois braço direito, a seguir esquerdo, parando mais tempo na esquerda, por onde podem entrar os maus. Vira depois o defumado e faz as defumações pela frente da cabeça aos pés. Em algumas pessoas, o presidente, depois de defumado pelo auxiliar, pega nas mãos e dá três puxões para baixo. A defumação é um processo de cura e também para livrar de maus-olhados, função preventiva e curativa. Ao defumar uma pessoa não lhe é permitido ter os pés calçados e deve também desmanchar os cabelos. Desceu um caboclo, e ao defumar o pesquisador disse: "Os bostocos". Imediatamente o presidente esclareceu que era para ficar descalço, pisando no chão: - "O chão é sagrado, só se pisa nele com os pés descalços", disse mestre Artur. Tal ordem é idêntica à: "Solve calceamentum de pedibus tuis lucus enim, in quo stas, terra Sancta est." Cantou-se o "linho" de Pedra Roxa e o caboclo se retirou, ficando o aparelho que o recebeu com os braços para cima. Assim é preciso disse o presidente, para que ele siga o caminho dos ares para chegar em sua aldeia. O "linho" cantado: 1
"Vamo apanhá a cinza Roxa interêco, corta pau, machadim, tira o mé, esta é a abelha uçu esta não é." 1
Bibliografia
Rodrigo de Azeredo Grünewald: Toré - Regime Encantado do Índio do Nordeste. Editora Massangana. Alceu Maynard Araújo: Folclore Nacional, Volume III; Ritos e Sabença, Linguagem, Artes e Técnicas. Edições: Melhoramentos. 1
Ligações externas
Ferreira, M.P.(2007): TORÉ XUKURU DO ORORUBÁ, UMA EXPRESSÃO RELIGIOSA, CULTURAL OU FORMA DE RESISTÊNCIA? I Colóquio de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Anais Eletrônicos, ISBN 978-85-87459-57-2 Grünewald, R.A., 2008. TORÉ E JUREMA: EMBLEMAS INDÍGENAS N O NORDESTE DO BRASIL, Ciência e Cultura, vol.60 no.4 São Paulo Oct. 2008, ISSN 0009-6725 1
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